minha memória mais feliz da infância é um carro empoeirado rodando as estradas de Minas, Luiz Gonzaga tocando no rádio e meu pai dirigindo calado ao meu lado.
no rádio tocava também Dominguinhos, Inezita, outros nomes e outras músicas. aquelas viagens pelo tempo e pelo asfalto ligavam cidades grandes a pequenas todas as vezes. nosso êxodo era esse, sempre do maior ao menor, e trazia consigo a sensação da pequenez diante de prédios gigantes, substituída pelo sentimento deslumbrado de grandiosidade em meio às casas e praças mínimas semeadas pelo interior, quando chegávamos lá.
foi em uma dessas chegadas que me senti vivo pela primeira vez e despertou-se em mim um estado primitivo de consciência daquilo que me rodeava e de quem me rodeava. a família e os amigos, os ritos, as obrigações, gente nova e gente velha. o cheiro da broa de milho e do café quente que acabara de ser coado.
o lugar feliz da minha infância está quilometrado nas estradas que me apresentaram ao desconhecido, nas terras não mapeadas pelos meus olhos, nas roças não exploradas pelos meus pés. quando oscilam as certezas, me lembro das coisas que vi naquele dia: a poeira subindo do chão e entrando pelas frestas do carro; meu pai com as mãos bem firmes no volante; a estrada aberta à frente, por onde passava a inocência de quem não sabia o que estava por vir, mas mesmo assim ia.
a lembrança me confirma que é assim que ainda vou, que aquela criança perdida no tempo não está mais perdida no tempo e encontrou seu espaço. foi garimpada de Minas.