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eu não sou esse tipo de cara

5 minutos atrás. ele pegou o telefone e enrolou alguns minutos, até digitar o número dela.

oi, ju, tudo bom contigo? desculpa falar disso por telefone, mas tá realmente bem corrido aqui, tenho uma reunião foda amanhã cedo. eu sei que não tem jeito fácil, mas eu queria aproveitar que o ano tá começando… olha, eu poderia ser escroto e te dizer que o que a gente viveu foi mais legal do que teve importância, mas você sabe que eu não sou esse tipo de cara…”


há cinco meses. tinham começado a sair há um tempo.

ela decidiu ligar pra ele, pra ver se queria fazer alguma coisa mais tarde, mas ninguém atendeu. passou o resto da tarde resolvendo coisas do trabalho na rua, correndo atrás do material que faltava para terminar a ilustração que precisava entregar dali a uns três dias. só voltou quando a noite já começava a cair. o interfone tocou quando ela cruzou a porta de casa. ouviu a voz dele do outro lado, misturada com a estática. moravam suficientemente perto um do outro para que ele pudesse fazer esse tipo de visita inesperada, se quisesse. ela abriu o portão lá embaixo e ele chegou à porta do apartamento um tempo depois meio ofegante, após três lances de escada, vestindo uma camiseta branca mal passada e carregando uma garrafa de cabernet sauvignon. isso respondeu à dúvida se queria fazer algo. entrou, se beijaram e foram se levando de costas até a cozinha. ele abriu as pernas dela antes de fazer o mesmo com o vinho.


4 minutos atrás. ele achava que era muito difícil ter certezas e entender as pessoas.

fiquei um tempo pensando sobre o que é que a gente tinha… ah, ju, meio difícil tirar de tudo algo que não fosse físico, né? se você tá entendendo o que eu quero dizer…”


há quatro meses. dentre as poucas certezas que ela tinha, estava a de que difícil mesmo era saber o que precisava ser entendido.

ele sugeriu que se encontrassem para ver um filme. se pegaram no cinema durante a eternidade de duas horas. foram para a casa dele logo em seguida, cozinharam, escutaram música e assistiram a mais um filme. ela dormiu por lá mesmo e acordou na tarde do dia seguinte com a cara toda amassada, enquanto ele tentava dar comida pro gato na cozinha, mas não tinha o suficiente. saíram pra comprar whiskas sachê e voltaram carregando também umas plantas que ele queria colocar pela casa. ela ajudou a encontrar os melhores lugares para elas, onde batesse sol suficiente para que sobrevivessem. (durante os meses seguintes, uma a uma morreu por falta de cuidado.)


3 minutos atrás. ele acreditava em assimetria. ela achava que assimetria só existia no discurso, que as ações carregam suas próprias verdades e os seus limites.

como assim? não, não era sério desse jeito. na real, não sei por que você pensou isso. mas era bom e tal, não tô dizendo que não era! só acho que já foi… acho que já foi, sei lá, suficiente? ju, se passarmos desse ponto, você vai começar a entrar na minha vida e eu vou entrar na sua e não é o que eu quero, pra ser sincero.”


há três meses. às vezes, o limite é obscurecido pelas suas bordas.

ele passou no trabalho dela para buscá-la e foram juntos ao planetário do parque, onde teria uma aula aberta sobre saturno, parte do programa de férias da universidade. sabia que ela gostava especificamente de saturno, por causa de umas histórias estranhas que seu pai contava quando ela era criança. ficaram ali, ouvindo um cara falar e as pessoas fazerem perguntas, vendo imagens serem projetadas em globos que pendiam por fios invisíveis de vigas muito altas. entre eles e as estrelas, naquela noite, não havia nenhum véu. retornaram pelas ruas mal iluminadas do bairro e pararam pra comer alguma coisa, sentados um de frente pro outro em um lugar que vendia kebabs incríveis. os olhos dele eram escuros como carvão, exceto quando falava, então reluziam feito brasa. ela estava desconcertada, sem entender o que era aquilo, quem era aquele cara, o que ele queria. até onde podia ir?


2 minutos atrás. outras vezes, o limite é confundido com a sua ausência.

isso que você tá falando é claro que é exagero… a gente tinha limites bem definidos. sei que é foda, mas a gente tem que levar em conta o que rolou de verdade e não a nossa interpretação, senão não vamos chegar a lugar nenhum. por isso eu achei importante termos essa conversa na calma, antes que qualquer coisa acontecesse…”


há dois meses. delimitado ou não, o espaço que damos um ao outro sempre se dilata em função do tempo.

foram para a casa dele e ficaram acordados durante a madrugada inteira, falando sobre tudo o que vinha à cabeça. o tempo passava lento, house passava na tevê, ele passava a mão pelo seu corpo. contaram um pro outro lembranças dolorosas de anos atrás, encarando o teto, imersos em nostalgia. se abraçaram e dormiram assim, as cabeças encostadas uma na outra, o vento fazendo barulho enquanto entrava suave pela janela e os aliviava o calor. acordaram com um sorriso estranho. tomaram café da manhã juntos, enquanto o apartamento era lentamente iluminado pela luz esbranquiçada que vinha da rua. ele se lembrou que tinha comprado para ela um livrinho com uma coletânea de poemas ucranianos, que por alguma razão desconhecida ela curtia muito. leu seus dois preferidos.


1 minuto atrás. e o tempo passa em consequência do espaço que a gente se dá.

olha, eu preciso mesmo desligar, amanhã tenho aquela reunião que te falei. você é muito massa, vamos nos ver mais pra frente? não queria deixar que coisa pouca atrapalhasse a amizade que a gente tem…”


há um mês. até que o tempo para.

dias depois, enquanto estava bêbado e deitado no colo dela, ele mudava de assunto como mudamos as estações do rádio numa viagem longa, até que finalmente sintonizou em algo e começou a tentar se lembrar do trecho favorito dela de um poema do hryhorij czubaj que tinham lido. não deu certo, mas se tivesse dado teria saído algo mais ou menos assim:

quando estou a meio fôlego de você
quando estou a meio passo dos teus lábios
tuas pupilas entrelaçam maravilhas
há algo triste e vasto nos teus olhos

tudo o que conseguiu dizer foi suas pupilas são maravilhosas”. estavam voltando da festa de ano novo em um táxi que cheirava a álcool, cansados de tanto dançar. enquanto o carro fazia a curva para entrar na consolação, ela pensava como é raro encontrar alguém que sabe o que quer.


agora. e o espaço se reduz a tudo aquilo que não foi dito. ele encerra a conversa como quem sabe disso muito bem.

então é isso. tchau, fica bem.”

do outro lado, ela subitamente se dá conta de que a sua estrofe preferida daquele poema do czubaj, na verdade, sempre tinha sido outra:

o tordo em teus cílios levanta voo
levando embora minha confiança para um lugar desconhecido
a metade de um passo fica por ser completada
a metade de um fôlego fica estancada na garganta

próximos babilônia eu costumava chamar essa cidade de Babilônia: um produto da soberba, muito maior do que deveria ser, dolorosamente concreta, feita de pontes que fragmento 547 a gente se jogava no rio e ficávamos submersos, contando quanto tempo conseguíamos aguentar sem voltar à superfície. eu sempre terminava em segundo
últimos posts o atlântico é mais que um oceano breve relato sobre sair do medo treze formas de matar satã roque santo garimpo fragmento 547 eu não sou esse tipo de cara babilônia abdução 2020 vista desimpedida rastro onésimo odisseia bocas de lobo bingo Turmúlio uma cronologia dos afetos tu sabe, dirce, que teu nome não é dirce? o outro é sempre um eu que se move manchete há uma ausência incômoda de tigres nas ruas bermudas your legs are so long you must remember to be kind what’s going on? this my most fundamental truth the waves of the end the war the void the time of death